21 de abr de 2008

São Bernardo: papel, casca de cebola e sisal geram renda para jovens da periferia

Elaine Granconato - da redação.
Mais do que contribuirem para a preservação da natureza com a reciclagem de papel, dez jovens da periferia de São Bernardo, entre 17 e 22 anos, recuperaram a auto-estima e descobriram o espírito empreendedor. Eles integram o grupo produtivo do Araçari, projeto da Prefeitura de São Bernardo que, além do apelo ecológico, visa a inclusão social e a geração de renda. Blocos de anotação, porta-retratos, porta-canetas, marca páginas, cartões de visita, vasos, álbuns de fotografias, luminárias, flores e embalagens de presentes, entremeados à casca de cebola, fibra de coco e sisal, são fabricados, artesanalmente, para venda no varejo ou no atacado. Na lista de clientes, entidades e empresas renomadas, como a Fundação Espaço Eco, organização não-governamental instituída pela Basf, e a Vega Engenharia Ambiental."É uma forma de incentivar e conscientizar as pessoas da necessidade de reciclar os mais variados materiais, além de apoiar o projeto dos jovens", afirma Rafael Luiz Marquezi, que coordena o programa interno de coleta seletiva da Vega, unidade São Bernardo, consumidora dos produtos do Araçari. A empresa premia, mensalmente, os funcionários que se destacam nesse processo de preservação ambiental. A última compra foi de porta-canetas que imitam os 203 ecopontos – depósitos de lixos recicláveis espalhados por vários bairros do município -, e carrinhos de varrição com bloco de anotação. A empresa de limpeza urbana é quem executa para a Prefeitura os serviços de coletiva seletiva; coleta domiciliar; varrição de vias; lavagem de feiras livres; remoção de entulhos de obras públicas e coleta dos móveis velhos da Operação Bota-ForaDesde 2005, a Fundação Espaço Eco, no bairro Botujuru, em São Bernardo, utiliza-se dos produtos frutos da reciclagem de papel. Desde blocos de anotação e pastas para seminários até a confecção de crachás e cartões de Natal. "O Projeto Araçari tem tudo a ver com as nossas atividades voltadas para a área de educação ambiental, reflorestamento e de cunho social. Estamos satisfeitos com o resultado", diz Jaqueline Masetto, da ONG de desenvolvimento sustentável inaugurada há dois anos pela Basf.Além das empresas nacionais, a exportação, mesmo que timidamente, também chegou ao Projeto Araçari no Jardim Nossa Senhora, região do bairro Demarchi, onde funciona a ofi-cina de reciclagem de papel e um showroom para venda direta ao consumidor. Uma enco-menda de 300 caixas para camisetas, com a Bandeira do Brasil, foi remetida para a Suécia. E outra de embalagens para vinhos teve como destino a Alemanha.Na linha de produção de quase 50 itens, jovens simples e de famílias humildes, porém trabalhadores, responsáveis, perseverantes e sonhadores. É o caso de Kelly Rufino Costa, 22 anos, moradora no bairro Botujuru, que há quatro anos integra o Projeto Araçari e pensa em fazer medicina. Seu pai aguarda na fila por um transplante de rim. Enquanto não chega, enfrenta sessões de hemodiálise. A jovem, que já concluiu o ensino médio, conta sua história sem rodeios. Paralelamente, não dá trégua para concluir a encomenda de pastas feita pela Fundação Espaço Eco, ligada à Basf. "O dinheiro que ganho das vendas repasso para meus pais", afirma Kelly, que possui mais seis irmãos.Além de contribuir para a renda familiar, o Araçari deu um novo horizonte para Kelly. "Aprendi coisas novas aqui, como reciclar o papel, além de distrair a cabeça", diz a jovem. "O convívio em grupo para a Kelly foi muito importante", afirma Cristina Olinda Granha Lopes, uma das coordenadoras do projeto de inclusão. Desde que foi implementado em 1998, o programa atraiu cerca de 180 jovens. Porém, nem todos investiram no grupo produtivo.Não é o caso de Aline Teles Feitosa, 18 anos, moradora no bairro Batistini, que se juntou ao grupo há dois anos. Primeiramente, a jovem, como todos os outros nove integrantes, passou pelo curso de reciclagem e artesanato em papel, oferecido gratuitamente pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania aos moradores de São Bernardo, a partir de 16 anos. "Me chamou a atenção o fato do reaproveitamento do papel, dos diferentes tipos de tingimento e o uso de cascas de cebola e de alho, por exemplo, para efeitos de decoração", afirma Aline, que agora não mais mistura lixo orgânico na sua casa com materiais recicláveis, como vidros, plásticos e papel. Aliás, as fibras orgânicas e folhas, como o coco e chá em saquinho, dão texturas e efeitos diversificados aos produtos, a partir da reciclagem.A lição de casa foi levada também para os amigos. "Eu explico que não podemos amassar ou fazer bolinhas com o papel, porque perde a consistência e a fibra. O ideal é rasgar ou dobrar para não danificá-lo", ensina Aline. Todo material (como papel sulfite e aparas) utilizado no Araçari é proveniente de todos os setores da Prefeitura, além de empresas e condomínios comerciais e residenciais da cidade parceiros. Dois centros municipais de ecologia e cidadania são responsáveis pelo armazenamento do papel, que totaliza cerca de 20 mil toneladas por mês – parte é utilizado pelos jovens, de acordo com a assistente social Dalva Pinheiro de Almeida Pagani, da equipe coordenadora do projeto.Para Valberlange Cosme de Meneses, 18 anos, do bairro Batistini, que divide a casa com os pais, mais sete irmãos e o sobrinho de oito meses, o projeto, além de ajudar na renda familiar e valorizar sua auto-estima, trouxe serviu de ponte para conhecer a namorada Bethel, que não mais faz parte do Araçari.Benefícios – A renda das vendas é dividida entre os dez artesãos, que possuem uma conta conjunta bancária, de acordo com Sandra Regina Costa de Barros, professora de apoio ao Projeto Araçari. Os jovens empreendedores recebem ainda como benefícios: vale alimentação, vale transporte e lanche – a produção é diária e, em média, são fabricadas 40 folhas de papel reciclado, matéria-prima para a confecção dos itens. Alguns deles, maiores de 18 anos, são cadastrados na Sutaco (Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades), o que possibilita a emissão de nota fiscal. "Nossa maior fonte são as encomendas das empresas. Por isso, novos parceiros são bem-vindos", ressalta Aline.O Projeto Araçari é dividido em três fases distintas. A primeira trabalha a formação do aluno, com noções de ética e cidadania. A profissionalização é a etapa seguinte, na qual a pessoa aprende a reciclar o papel (picar, tingir, textura) e transformá-lo em produtos artesanais, como blocos e porta-retratos.Já o grupo produtivo visa às ações empreendedoras, desde a produção dos itens para venda até a contribuição com o meio ambiente. O objetivo é a geração de renda e fazer com que o jovem busque sua autonomia. O Araçari se baseia na política dos quatro Rs (Reeduque, Reduza, Reutilize e Recicle), que faz parte do Programa Lixo & Cidadania, também assinado pela Prefeitura.E foi por um desses cursos de qualificação que passou a artesã de bijuteria de saquinho de papel de pão Ariane Justino da Silva, 22 anos, hoje instrutora da Prefeitura.
Projeto Araçari -
Onde fica – Rua Valdomiro Luiz, 65. Jardim Nossa Senhora de Fátima/Bairro Demarchi. Telefone – 4396-7171.Horário – de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
Informações à imprensa - Depto. de Comunicação - Divisão de JornalismoTelefones: 4348-1043 e 4348-1044
Arquivo: Projeto Araçari (27/9/07)
Fotos: MamedioRedatora: Elaine Granconato (mtb 9.719)

Um comentário:

Atelier Kátia Cristina disse...

Gostaria de trabalhar neste tipo de projeto. Sou artesã e tenho muita vontade de ir para São Tomé e Príncipe para trabalhar lá.
Gostaria de informações sobre "como proceder".
Atenciosamente,
Kátia Cristina
www.ateliekatiacristina.blogspot.com